Amare l’abisso e non innamorarsene mai
1
Ele a via como um acontecimento raro. Não só pelo corpo, embora cada curva dela parecesse ter sido feita para desorientá-lo... mas pelo conjunto impossível de existir daquele jeito. A voz dela era o que mais o desmontava: o timbre, as pausas, a forma como certas palavras pareciam inocentes sem saber o efeito que causavam. Ele poderia ouvi-la falar qualquer coisa e ainda assim sentir o mundo perder o eixo. O corpo dela, para ele, era reverência. O jeito como ela se movia, como inclinava a cabeça ao ouvir, como ocupava o espaço sem pedir licença. Tudo virava detalhe importante, tudo virava memória guardada com cuidado excessivo. Ele a observava como quem tem medo de perder, mesmo quando a tinha tão perto. Ela era perfeição não por ser inalcançável, mas por ser real demais e isso o tornava obcecado. O desejo dele por ela era um tipo de entrega que assustava. Não era só querer, era precisar saber onde ela estava, como estava, se pensava nele quando fingia não pensar. O ciúme nele não fazia barulho; era atento, silencioso, quase protetor. Ele sabia que não sairia fácil dela. Sabia que ela deixara marcas que não apareciam. E mesmo assim, escolhia ficar naquele espaço limitado onde a paixão virava risco.
Ela, por sua vez, o via como firmeza e perigo na mesma medida. Havia nele um controle tranquilo, sem dureza, que a fazia confiar sem se sentir presa. O olhar dele a atingia em cheio... direto, intenso, como se enxergasse camadas que ela nem sempre mostrava. Quando ele a encarava, ela não precisava se explicar. Ele já a via inteira. O corpo dele, para ela, era abrigo e vertigem. Um lugar onde se sentia segura para perder o controle. Gostava de como ele se aproximava sem invadir, de como sabia exatamente quando avançar e quando esperar. Havia nele uma presença que não precisava provar nada e isso a desarmava completamente. Mas o que mais a prendia era a atenção. O modo como ele a escutava, como se cada palavra dela importasse. Ela sabia que mexia com ele e isso a excitava, a fortalecia, a conectava ainda mais. Também não saía ilesa. Ele virara referência, comparação, pensamento recorrente. Um vício consciente.
No fundo, era um encontro possível apenas daquele jeito: intenso, secreto, delimitado. Um sentimento que não prometia futuro, mas entregava verdade no instante. Eles sabiam que não seria fácil ir embora. Sabiam que talvez nunca fossem. E talvez fosse exatamente isso - a escolha diária de não ultrapassar a linha que tornava tudo tão profundamente inesquecível e urgente.
2
As horas com eles tinham um ritmo próprio, distorcido. Quando se entregavam, o tempo deixava de obedecer qualquer lógica: horas viravam minutos e passava como um suspiro. Era sempre assim: começavam achando que tinham controle, e terminavam perdidos no breu. O mundo ficava do lado de fora, irrelevante, como se nada existisse além daquele espaço onde só eles sabiam respirar. Ele a conduzia com uma firmeza que não pedia permissão, mas nunca tirava a escolha. Era ali que ela se perdia. No jeito como ele a segurava, na voz baixa dizendo o quanto ela o enlouquecia, no tom que misturava desejo e certeza. Quando ele dizia que ela era só dele naquele momento, não soava como prisão, mas como entrega mútua, como um acordo silencioso que ela aceitava sem hesitar. Ela se deixava dominar porque confiava. Porque gostava de sentir o próprio controle escorrer, de ser lida, guiada, tomada pela intensidade dele. Havia algo profundamente íntimo em se permitir, em mostrar sem reservas o quanto queria, o quanto precisava. Ela dizia — sem medo, sem jogo — o quanto amava se entregar a ele, o quanto aquele lugar entre eles a fazia sentir-se viva, desejada, inteira. E quando tudo desacelerava, quando os corpos ainda vibravam do excesso, era ali que a conexão se firmava. Olhares demorados, respirações ainda descompassadas, um silêncio carregado de promessas que não precisavam ser cumpridas para serem reais. Eles sabiam: aquilo não era só desejo. Era um tipo de loucura compartilhada, uma entrega consciente demais para ser ignorada, intensa demais para ser esquecida.
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