Insônia do teatro

Escutei mais de cinquenta discursos todos esses anos, nunca imaginei que meu carrasco seria eu mesma. Há horas que meu eu: nu e frágil, acanha-se a dividir qualquer desastre interior. Há uma desconfiança amarrada, sinto na minha pele a triste realidade de não poder dividir tamanho fascínio pelo caos vivo e cru. Sonho que estou em uma trama, os personagens exalam falsidade atrás das cortinas. Não posso ser ausente. Não posso gritar. Não posso viver no emaranhado, cercado por bois. Eu não sei mais, habitar ou destruir as correntes enferrujadas pela ganância? Fui jogada! Isso mesmo, fui jogada aos urubus. Não consigo acordar. Eu grito, imploro. Mas o meu corpo não está disposto a ajudar, um obstáculo para a lucidez. Não entendo a dimensão do que está acontecendo, mas reconheço o desespero que está tomando conta da minha mente. Um dos personagens possui ódio no olhar, insegurança na alma e sede de vingança. É difícil identificar o lugar do sonho, é frio, cheio de repreensões, ignorância, o tempo intensifica os sentimentos ruins, um segundo equivale há anos. Não sei até quando ficarei presa aqui, mas espero que não seja tudo em vão.

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